O estado da banca nacional

À vitalidade da bolsa portuguesa contrapõe-se uma realidade menos agradável. Enquanto o nosso índice acumula 6% desde o início do ano, a nossa banca continua em frangalhos.

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Por 6 de Abril de 2017

.: Silêncio, por favor
.: Dicotomia portuguesa
.: De todas as formas
.: Quadro surrealista
.: Bancos centrais

00:10 - Silêncio, por favor

Um dos grandes desafios de acompanhar diariamente o mercado e as novidades económicas é manter uma visão do todo em face do ruído permanente.

Talvez os nossos pais não estivessem a exagerar quando recomendavam que não ouvíssemos a música tão alto.

Não nos deixemos perturbar pelo barulho do noticiário: um momento de reflexão.

01:22 - Dicotomia portuguesa

À vitalidade da bolsa portuguesa contrapõe-se uma realidade menos agradável.

Enquanto o nosso índice acumula 6% desde o início do ano, a nossa banca continua em frangalhos.

Não é de hoje…

Assolado por um legacy de crédito malparado, o setor continua com dificuldade em tornar-se competitivo num mundo de taxas de juro zero.

As consequências estão aí:

– As falências do BES e do BANIF…

– A destruição de capital verificada no BCP.

– O montante envolvido na intervenção da Caixa (que comprova que banco público é tão mau ou pior que banco privado).

– A incapacidade de atrair investidores para capitalizar o Novo Banco e o Montepio.

E todos eles emaranhados num novelo chamado Fundo de Resolução.

02:33 - De todas as formas

O Governo tenta de todas as formas solucionar o problema, com algumas propostas caricatas e outras completamente aberrantes.

Recordemos alguns episódios recentes:

1) O “banco mau” ficou em águas de bacalhau e desapareceu da ementa (a experiência italiana mostrou a ineficácia do mesmo).

2) A venda do NB, que foi anunciada com pompa e circunstância, e que não traria quaisquer encargos ao contribuinte pode, afinal, não se concretizar.

É que a reestruturação da dívida sénior em subordinada (a troca voluntária de dívida) que é essencial para a operação avançar afinal não é assim tão simples e pode pôr em causa todo o negócio.

Entretanto, o tempo passa, os ativos valem cada vez menos e o buraco é cada vez maior… ainda ontem, a Moody’s cortou o rating do Novo Banco.

Ah… e caso se concretize, o Bloco já admitiu que a venda terá custos para o erário público – menos areia para os olhos do contribuinte sff.

3) “Alguém” avançou com a ideia de levar a Santa Casa para o capital do Montepio. O que não só demonstra a situação desesperada do principal acionista (Associação Mutualista), como a falta de interesse de outros investidores institucionais.

Soube-se hoje que a SCML não tem qualquer intenção em relação ao banco do pelicano.

Outro problema por resolver sem solução à vista.

03:02 - Quadro surrealista

Diante deste quadro, digno de Dalí, é apenas natural que cerca de 1/3 dos nossos leitores tenha escolhido a fragilidade da banca como a sua principal preocupação.

Os leitores do Carta já conhecem os bancos onde não devem ter as suas poupanças e as nossas recomendações para deixar o seu património a salvo em caso de falência.

Em segundo, na lista dos desassossegos, está a falta de alternativa aos depósitos.

Foi a pensar nessa carência que o Diogo encontrou três oportunidades de investimento para obter retornos acima da média. Descubra aqui quais são.

04:01 - Bancos centrais

O tema dos Bancos Centrais está de volta.

É Europa vs. EUA.

Do lado de lá, as minutas da Fed fizeram pouco para alterar a visão do mercado sobre a avaliação de Yellen em relação à economia americana, mas tiveram o condão de relançar a discussão sobre a redução dos $4,5 triliões de dólares ainda no balanço da instituição.

Receios de uma queda na liquidez global são o mote para as quedas verificadas hoje nas bolsas.

Deste lado do mar de Atlas, a mensagem de Draghi é a mesma de sempre: “o apoio à procura continua a ser essencial.”

Em consequência, as expetativas em relação a uma subida dos juros caíram novamente.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.