O lado negro da força

Quem lê a imprensa financeira já deve ter ouvido o termo “beat the street”, o que no jargão de rua significa apenas “superou as estimativas”.

Maior Menor
Por 14 de Abril de 2016

.: Timeout
.: Das duas uma
.: Porrada na rua
.: Jogo de Sombras
.: O poder do sell-side

00:12 - Timeout

O mercado faz pausa depois de 5 dias consecutivos de alta.

Só falta agora saber se terá força para continuar….

Investidores europeus investem novamente contra os máximos de fevereiro.

Há pelo menos duas histórias que alimentam a boa disposição: “bons” dados chineses e o apetite ao risco norte-americano.

No espectro oposto, temos a revisão em baixa do crescimento global por parte do FMI.

Numa visão fundamental, menos crescimento é igual a earnings piores.

Numa visão de mercado, o ambiente de juros baixos alavanca a subida dos ativos de risco…

M5M14ABRIL

01:10 - Das duas uma

A letargia do mercado europeu não tem afetado o positivismo das bolsas do Tio Sam.

Inspirados por um banco central cada vez mais indeciso…

Desleixe na inflação alimenta o rally de abril.

Com os constantes adiamentos da subida das taxas, fico a pensar duas coisas:

Ou a Yellen é muito fraca.

Ou é muito boa.

Nesta segunda hipótese, admito que ela saiba mais do que o mercado…

E se ainda não subiu as taxas, significa que está a tentar esconder algo de muito podre…

02:07 - Porrada na rua

Quem lê a imprensa financeira já deve ter ouvido o termo “beat the street”, o que no jargão de rua significa apenas “superou as estimativas”.

Uma pequena explicação…

As previsões dos analistas estão longe de ser perfeitas, mas como são vistos pela grande maioria dos investidores, desempenham um papel importante na avaliação de uma ação…

É por isso que, como parte dos seus serviços, as grandes empresas de corretagem, como o Citigroup e a Morgan Stanley (o “sell side” de Wall Street e de outras comunidades de investimento)…

Empregam centenas de analistas de ações para publicar relatórios de previsão sobre os lucros das empresas…

Mesmo os investidores mais sofisticados – como fundos mutualistas e fundos de pensões – dependem fortemente destas estimativas de consenso para tomar decisões.

De fato, a maioria deles não tem os recursos para rastrear milhares de empresas cotadas em detalhe…

03:12 - Jogo de Sombras

As previsões de lucros baseiam-se em expectativas de crescimento da empresa e da rentabilidade dos analistas.

Para prever ganhos, a maioria dos analistas constrói modelos financeiros que estimam receitas e custos potenciais.

Muitos analistas irão incorporar fatores como taxas de crescimento económico, moedas e outros fatores macroeconómicos que influenciam a performance das cotadas…

As estimativas do consenso são tão poderosas que mesmo pequenos desvios podem enviar o preço de uma ação para cima ou para baixo.

Se uma empresa excede as suas estimativas de consenso é geralmente atribuído a um aumento no preço das ações.

Se uma empresa está aquém dos números de consenso – ou, por vezes, mesmo só quando cumpre as expectativas – o preço da ação pode levar uma porrada.

04:20 - O poder do sell-side

É daqui que nasce o poder do sell-side de influenciar o mercado…

Como vimos, é mais importante bater as estimativas do que, por exemplo, superar o desempenho do ano passado.

Vejamos um exemplo:

Ontem a JPMorgan, o gigante da banca de investimento, subiu mais de 4% depois de anunciar resultados acima das expectativas dos analistas…

Na realidade, os resultados vieram 8% abaixo a igual período do ano passado.

Na prática, significa que o banco fez pior.

Na teoria, fez melhor do que se estava à espera.

Este fugazzi do mercado exponencia o movimento de compra e venda de ações, mas ajuda-o muito pouco se quer tomar uma decisão de investimento de longo prazo…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.