O melhor é ignorar as eleições

À cautela, não ligue a televisão. Hoje é dia de eleições norte-americanas. Normalmente não tomo decisões de investimento com base em palpites de resultados eleitorais, mas desta vez faço-o por indiferença.

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Por 8 de Novembro de 2016

.: Desligue a televisão
.: Quem é o melhor para a bolsa?
.: Garantia de retornos
.: Cores portuguesas
.: A noiva é feia

00:09 - Desligue a televisão

À cautela, não ligue a televisão. Hoje é dia de eleições norte-americanas.

Normalmente não tomo decisões de investimento com base em palpites de resultados eleitorais, mas desta vez faço-o por indiferença.

Frente a frente estão os candidatos mais impopulares da história norte-americana: 55% dos yankees detestam Clinton, enquanto 58% não podem com Trump.

Esta discórdia entre os eleitores é um retrato de um contexto político cada vez mais dividido. Convenhamos, mais no palavreado do que na conduta.

Nem Hillary é a candidata mais à esquerda provinda do partido Democrata, nem Trump é (sequer) de direita. Se tanto, estão os dois bem no centro.

Para os mercados, a vitória de Hillary assegura a continuidade do plano económico Obama: taxa de juros próxima de zero e soberba nos ativos de risco.

Se pender para Trump, é uma incógnita.

01:22 - Quem é o melhor para a bolsa?

David Almas, jornalista do Observador, numa análise bastante oportuna analisou qual dos partidos é melhor para a bolsa.

Dos resultados, observou que o “Dow Jones Industrial Average subiu 7,4% por ano durante as presidências de políticos democratas desde 1901, enquanto o mesmo índice de ações norte-americanas valorizou apenas 2,7% por ano quando republicanos ocuparam a Casa Branca.”

As investigações que analisaram o impacto das diferentes administrações no mercado concluíram que a diferença se deve “não só a retornos reais superiores, mas também a taxas de juro inferiores”.

Não sou só eu que assume que o plano Obama é para continuar.

O mercado também conhece a história.

02:33 - Garantia de retornos

Retornos passados não são garantia de retornos futuros.

Portanto, não invista nas bolsas norte-americanas só porque quem ocupa a Sala Oval é de um determinado partido.

De facto, o ciclo está a mudar…

Alan Greenspan considera que as “extraordinariamente baixas taxas de juro” pagas pelo Tesouro norte-americano para emitir dívida pública não vão continuar durante muito mais tempo…

O antigo presidente da Reserva Federal prevê que a yield associada às obrigações norte-americanas com maturidade a 10 anos aumente para 3%, 4% ou 5%.

Atualmente, situa-se abaixo dos 2%…

A principal razão para esta subida vai ser a inflação.

O mandato da Fed é garantir a estabilidade de preços… Se as taxas se mantiverem baixas por muito mais tempo, a inflação pode galopar e obrigar a Reserva Federal a uma intervenção mais agressiva (leia-se, subida das taxas mais rápido que o estimado).

O desenlace nos mercados não seria bonito…

03:05 - Cores portuguesas

Ontem alertei que o Orçamento estava em Bruxelas…

E como previsto: o Eurogrupo, liderado por Jeroen Dijsselbloem, renovou indicações de que aceitará a proposta de Orçamento.

Mesmo assim, apenas na próxima semana conheceremos o veredito final.

Que se espera favorável para as cores portuguesas…

Mais importante, na minha opinião, foi a intransigência dos ministros das Finanças europeus para discutirem uma renegociação das taxas de juro associadas aos empréstimos europeus feitos ao Estado português.

“Não discutimos, nem vamos discutir, porque Portugal é capaz de gerir a sua dívida. E não estamos certos que assim seja no caso da Grécia, é essa a grande diferença. Não vamos confundir”, declarou Dijsselbloem.

04:02 - A noiva é feia

Se cá dentro o Governo continua com a retórica do “felizes e estupidamente contentes”…

À porta fechada, Mário Centeno pede condições mais vantajosas para reembolsar os empréstimos concedidos pela Europa.

Aos poucos, o ministro das Finanças começa a tirar o véu e toda a gente já percebeu que a maquilhagem não disfarça a feiura da noiva…

O stock de dívida continua a aumentar, a economia está paralisada, e sem esta, o problema da dívida é só uma bomba-relógio…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.