O número certo de ações em carteira

Tal como a minha avó percebeu, a concentração é perniciosa pois envolve riscos exagerados, por estarmos expostos a eventos não planeados.

Maior Menor
Por 27 de dezembro de 2017

.: Ceia de Natal
.: Debate sobre a diversificação
.: Warren Buffett
.: Todos podem
.: Superpoder

00:12 - Ceia de Natal

Para a ceia de Natal, a minha avó estava indecisa entre o bacalhau e o cabrito.

Sabe como é: a turma dos carnívoros não é muito sensível à tradição.

Para não deixar ninguém descontente, a Dona Elisa fez os dois pratos com a mestria habitual.

(Desconfio que) sem ter noção disso, ela diversificou o risco de não ter toda a família a elogiar os seus cozinhados. Algo raro, diga-se.

Mas por que é que lhe estou a contar isto?

01:03 - Debate sobre a diversificação

Existe um debate perene no mundo das finanças sobre a diversificação.

Dentro da teoria tradicional, o assunto rendeu o prémio Nobel a Harry Markowitz.

A ideia do economista poderia ser resumida pelo cliché de não se colocarem todos os ovos na mesma cesta.

A partir da escolha de ativos negativamente correlacionados, ou seja, que não se movem na mesma direção (a bolsa sobe, o euro cai), o investidor poderia reduzir o risco do seu portfólio, para o mesmo retorno esperado.

Na praxis, a diversificação traria eficiência ao portfólio do investidor.

02:12 - Warren Buffett

Do lado oposto da barricada, aparece Warren Buffett e a sua defesa pelo investimento concentrado.

Buffett é, possivelmente, o maior investidor em ações de todos os tempos.

Se ele fala, nós baixamos as orelhas.

De acordo com o megainvestidor, uma maior diversificação implica um aumento dos riscos da carteira, e não redução, conforme pressupõe o mecanicismo de Markowitz.

Ao diversificar em vários ativos, o investidor acaba por sair do seu círculo de competências e expõe-se a ativos/empresas sobre os quais dispõe de pouca ou nenhuma vantagem informacional.

Ou seja, acaba por comprar algo que não compreende e, assim sendo, está sujeito a riscos que o próprio desconhece.

03:09 - Todos podem

Qual é a minha visão sobre o tema? Como em tudo na vida, no meio está a virtude.

Markowitz está certo sobre a necessidade da diversificação, mas o seu modelo está errado do princípio ao fim.

E Buffett, por sua vez, pressupõe que podemos saber mais do que os outros ou, pelo menos, sobre a empresa em que vamos investir.

O problema é que, se nós podemos, todos os outros investidores também podem.

04:01 - Superpoder

Eu adoraria acreditar que disponho de um superpoder que me diferencia do resto da comunidade financeira. Quase de certeza, porque ainda não fui picado por uma aranha ou exposto a um teste nuclear.

Haverá sempre um ex-diretor da GALP que entenderá mais do que eu sobre o setor petrolífero (obviamente, isto é só um exemplo… pode transpor o argumento para todos os setores).

Tal como a minha avó percebeu, a concentração é perniciosa pois envolve riscos exagerados, por estarmos expostos a eventos não planeados.

Ao fazer apenas uma iguaria, a Dona Elisa arriscava-se a desagradar a várias pessoas.

A diversificação é o caminho em bolsa por evitar exposição excessiva a um evento raro negativo e por permitir que estejamos expostos para capturar o perfil convexo das ações.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.