O povo quer, o povo tem

Para quem está na oposição basta murmurar aos ouvidos dos eleitores que, se estivesse no lugar do governo, aumentaria os benefícios, com diminuição de impostos. Os eleitores acreditam e votam na mudança.

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Por 1 de Setembro de 2016

.: O Estado
.: Concurso de popularidade
.: O que realmente interessa
.: Mais uma moedinha
.: Tudo na expetativa

00:11 - O Estado

Bastiat escreveu no seu livro “O Estado” que “coexistem no povo duas esperanças e no governo duas promessas: muitos benefícios e nenhum imposto. Esperanças e promessas que, por serem antagónicas, são impossíveis de realizar”.

É essa a raiz de todos os ciclos políticos: PSD, PS… para depois, novamente, PSD e depois PS… num ciclo interminável…

É um jogo viciado. Para quem está na oposição basta murmurar aos ouvidos dos eleitores que, se estivesse no lugar do governo, aumentaria os benefícios, com diminuição de impostos.

Os eleitores acreditam e votam na mudança.

01:22 - Concurso de popularidade

O novo governo é chamado a atender os desejos da população. Veja-se as manifestações a exigir 35 horas na função pública, greve disto e daquilo, táxis revoltados porque lhes retiraram o monopólio… enfim…

Cedo descobre que para devolver benefícios, tem de ir buscar dinheiro a outro lado (leia-se, taxação). Dito de outra forma, não se pode ser magnânimo sem cobrar impostos, e se abdica da taxação, não consegue cumprir a promessa de benefícios…

Fica entre a espada e a parede…

Mas a política sempre atraiu homens engenhosos. Rapidamente descobrem que a fórmula para ultrapassar este problema é recorrer ao crédito: “tenta-se fazer um pouco de bem, no presente, às custas de muito mal no futuro”.

A bem da verdade, o povo está a exigir agora! No futuro, logo se verá…

02:03 - O que realmente interessa

E assim vai Portugal… O executivo apodera-se dos lugares comuns. Compromete-se com a devolução de benefícios, ganha tempo ao reduzir drasticamente o investimento e aumenta o endividamento…

Mas, na prática, está a passar dinheiro de uma mão para a outra, num malabarismo que serve para distrair a opinião pública.

Ao mesmo tempo que o tecido económico se vai definhando “lentamente”…

E nem quando o ministro da Economia admitiu que a economia pode crescer este ano à volta de 1,2%, abaixo dos 1,8% previstos no Orçamento do Estado, o povo se revolta.

Inebriado com a perspetiva de mais benefícios sem nenhum custo no pacote…

Só quando o fantasma da bancarrota voltar é que vamos ver que o Rei Costa vai nu.

03:03 - Mais uma moedinha

Entretanto, o fartote de liquidez mundial vai fazendo o seu propósito na elevação do preço dos ativos a nível global.

As obrigações soberanas com uma yield precedida de um sinal menos já totalizam 10 triliões de dólares…

Não admira que, de acordo com o CFA Institute, numa recente sondagem a 815 analistas financeiros, quase 90% acreditam que pelo menos uma parte do mercado de dívida global está a experienciar um tipo de bolha neste momento.

Cerca de um terço acredita que todas as obrigações (renda fixa) estão efetivamente numa bolha, enquanto um quarto acredita que os títulos soberanos estão a “borbulhar”…

Mesmo assim o carrossel continua…

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04:21 - Tudo na expetativa

Acabaram-se as férias, o que para os profissionais do mercado significa o regresso às mesas de negociação, modelos de avaliação e cavaqueira com os sales sobre as hipóteses da equipa A ou B conquistar o título (agora que a época de transferências chegou ao fim).

E a sessão não podia ser mais tranquila para “trocar umas bolas” com os colegas, amigos e contrapartes: com os índices europeus em alta ligeira, mas a negociarem com pouco volume.

Nos EUA o cenário é, também, de aparente acalmia, uma vez que os investidores devem aguardar pela divulgação dos dados de emprego esta sexta-feira, para avaliar se a economia norte-americana está forte o suficiente para suportar uma subida da taxa de juro nas próximas semanas.

A previsão de consenso é que os dados vão mostrar a criação de 180.000 novos postos de trabalho em agosto, após um aumento de 255.000 no mês anterior.

Um relatório robusto reforçaria a visão de que um aumento da taxa EUA em setembro pode estar nos cartões, depois dos sinais hawkish dos oficiais do Fed nos últimos dias…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.