Os melhores do ano

Quantas ações duplicaram ou triplicaram de valor em 2016? Quantos investidores terminam o ano frustrados com as suas escolhas e por não terem antecipado os grandes winners?

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Por 29 de Dezembro de 2016

.: Os melhores de 2016
.: Winner, winner, chicken dinner
.: Dia de correção
.: Lição de História
.: Genéricos

00:12 - Os melhores de 2016

Fico sempre impressionado com as listas, que brotam sempre por esta altura, com “os melhores do ano”.

Se algum dia eu conseguir ler os melhores livros, ouvir os melhores álbuns ou ver os melhores filmes de 2016, já estaremos em 2020 ou lá perto.

Descobri que o mais eficiente é não fazer nada. É esperar que alguém faça esse trabalho por mim. Imagino que Emerson me responderia: “a vida é uma jornada, não um destino”. Mesmo assim, vale a pena esperar.

Concebo que o mesmo pode ser aplicado ao mercado de capitais. Quantas ações duplicaram ou triplicaram de valor em 2016?

Quantos investidores terminam o ano frustrados com as suas escolhas e por não terem antecipado os grandes winners?

Hoje, parece “óbvio” que a NVDIA tinha tudo para valorizar 230% – estava na cara que a procura por placas gráficas se traduziria em resultados fenomenais trimestre após trimestre…

01:33 - Winner, winner, chicken dinner

Eu, por outro lado, sou da opinião que, além de impraticável, a procura incessante pelos grandes cases de multiplicação de valor levam os investidores a cometer as maiores atrocidades contra o seu património.

Racional simples: não tente adivinhar quais serão os grandes vencedores do próximo ano. Essas empresas são normalmente aquelas que povoam a linha marginal do sonar do consenso.

São normalmente histórias de tudo ou nada. Lembre-se do mantra: “quanto maior o risco, maior o retorno”.

Imagino aquelas empresas que estão às portas da falência, mas que se fizerem um turnaround bem-sucedido podem ser vendidas pelo triplo ou quádruplo. Com a estratégia certa, até pode fazer sentido.

Porém, o mais provável é perder todo o dinheiro que lá meteu. O melhor mesmo é ficar-se pelas boas, estáveis e aborrecidas. No longo prazo a sua carteira agradece.

02:11 - Dia de correção

Bolsas caem no velho continente, num dia de baixo volume, seguindo a tendência definida em Wall Street, após o segundo maior declínio (-0,56%) desde as eleições presidenciais de 8 de novembro.

Como tal, o Dow adia novamente a possibilidade de ultrapassar os 20.000 pontos. Mesmo assim, ainda restam duas sessões para fechar o ano acima dessa marca histórica.

Petróleo volta a ceder e impõe certa cautela, em dia de divulgação de stocks nos EUA.

Por aqui, receios no setor bancário fazem disparar os alarmes no BCP. Esta é a terceira sessão consecutiva de perdas no banco e o terceiro dia consecutivo em que atinge novos mínimos.

03:04 - Lição de História

Em política, o primeiro ano de mandato deve ser sempre utilizado para tomar as medidas mais impopulares. É impossível administrar a não ser com impopularidade, diria Bastiat.

Pois existe sempre uma contradição: se o executivo quer ser altruísta é obrigado a permanecer fiscal, e se abdica de taxar impostos, tem que deixar também o altruísmo.

Estes compromissos excluem-se, sempre e necessariamente, um ao outro.

Usar o crédito, isto é, adiar o problema, é uma maneira muito atual de conciliá-los.

Tenta-se fazer um pouco de bem no presente às custas de muito mal no futuro.

Por ora, esta última tem sido a solução mais usual para manter altos índices de popularidade.

Todavia, o futuro um dia destes vem bater à porta…

04:05 - Genéricos

Existe à partida uma limitação óbvia em qualquer Governação: a aproximação das eleições amplia a necessidade de agradar o eleitorado.

Ignorar esse facto é pura ingenuidade. À esquerda ou à direita. Em cima ou em baixo. Quanto mais perto do plebiscito, mais populares se tornam as medidas e mais pesado se torna o fardo no futuro.

Este Governo desaproveitou essa janela e começou a ser populista desde o primeiro dia. Mesmo que fiscalista, as medidas estruturais ficaram todas na gaveta.

Conseguem aumentar-se impostos; só não conseguem aumentar-se impostos e fazer reformas estruturais, argumentariam alguns.

A CGD é só mais uma vítima desta contradição. O Governo adiou para o novo ano toda a capitalização da CGD, incluindo a conversão de “CoCos”.

O atraso garante o cumprimento da meta orçamental, mas deixa a Caixa com solidez abaixo do mínimo.

Este é um Governo de vistas curtas. Não cria soluções. Adia os maiores problemas (resolução da banca e problemas de competitividade). Mas cumpre metas orçamentais à custa de cortes e cativações.

Começa com a popularidade em alta, veremos quando a situação exigir remédios profundos.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.