Preciso de lhe abrir os olhos, António

O colapso português não principiou em 2011. Os desequilíbrios são o resultado de décadas de má gestão suportadas por financiamento barato e profuso (leia-se, com taxas de juro alemãs).

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Por 30 de Novembro de 2016

.: Mexe o mexilhão
.: PIBeroso
.: A história da avozinha
.: Num passe de mágica
.: Não existe cura milagrosa

00:11 - Mexe o mexilhão

Para quem acha que renda fixa é mesmo fixa: taxa das OT a dez anos saltaram +130 pontos desde há um ano a esta parte.

O PSI20 também chacoalhou bastante, vítima do aumento do prémio de risco, e tombou 17%.

O mercado como um todo mexe quando a vida mexe.

Pense só em quantas coisas passam pela sua cabeça durante um dia. Apenas uma parcela muito pequena é exteriorizada oralmente.

O mercado, porém, não faz esse filtro; diz tudo o que lhe vem à cabeça, a cada milissegundo.

E por isso oscila tanto.

01:22 - PIBeroso

Agora chegou a hora de mexer com a divulgação do PIB norte-americano.

A economia americana cresceu 3,2% no terceiro trimestre.

Mais uma vez, acima do esperado.

O sujeito tem que ser louco para não prever um aumento dos juros americanos a 14 de dezembro.

Chegou a hora.

Confesso que imaginava uma data a sugar todas as atenções.

02:33 - A história da avozinha

E não é que o petróleo dispara e as bolsas acompanham os ganhos?

Pois é, depois de umas semanas calada, a OPEP lança mais um boato.

Os grandes produtores de petróleo reúnem-se em Viena para tentar alcançar um acordo para cortar a produção.

Já todos ouvimos esta história…

Nos mercados, petrolíferas empurram índices para terreno positivo. Por cá, a GALP faz o que pode pelo paupérrimo PSI20.

03:06 - Num passe de mágica

Recebi alguns emails de leitores insatisfeitos com o M5M de ontem. Lá no íntimo, eu já estava à espera. Infelizmente, a verdade não está na moda nos dias que correm.

Aproveito para agradecer ao Sr. António a disponibilidade de comentar, assim como aos outros.

As vindicações de uma forma geral dividiram-se em dois grupos:

i) os que me acusam de teórico da conspiração;
ii) os que culpam o programa de ajustamento pelos males da economia.

Aos primeiros, conforta-me a convicção de que tudo o que expus são factos. Portanto, de certa forma, a minha opinião é uma mera constatação algébrica.

Aos segundos, garanto que estão a confundir o mal que nos levou à doença com a cura.

04:12 - Não existe cura milagrosa

O colapso português não principiou em 2011.

Os desequilíbrios são o resultado de décadas de má gestão suportadas por financiamento barato e profuso (leia-se, com taxas de juro alemãs).

Durante esse processo acumulamos um stock de dívida gigantesco e amplificámos outros problemas, tais como a alocação de capital ineficiente, um setor financeiro disfuncional e o crescimento desmesurado da máquina estatal.

Sinceramente? Por mais que queiramos, não existe nenhuma receita milagrosa para resolver um problema desta magnitude em meia dúzia de anos.

E pior, já revertemos grande parte das medidas do ajustamento (muitas nem saíram do papel). No entanto, estamos prontos a aceitar o primeiro que nos anuncia um analgésico. Como se um Aspegic fosse capaz de curar doenças crónicas.

Esse placebo adormece a população que assim ignora o risco escondido.

Alguns querem acreditar numa solução mágica.

Ora, essa simplesmente não existe. E quando mais tarde acordarmos para essa realidade, pior vai ser o desfecho.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.