Qual é que quer ouvir primeiro – a boa ou a má?

Como é que se diz mesmo quando acontece uma coisa positiva? “Deixa-me dar-te uma boa notícia”, não é? Já não me lembrava como é que isto se fazia.

Maior Menor
Por 16 de Novembro de 2016

.: Boas novas
.: Factos e evidências
.: O Bom, o Mau e o Vilão
.: O pior aluno da turma
.: Resumidamente

00:10 - Boas novas

Como é que se diz mesmo quando acontece uma coisa positiva? “Deixa-me dar-te uma boa notícia”, não é? Já não me lembrava como é que isto se fazia.

Fiquei desabituado. Os primeiros seis meses do ano foram um autêntico massacre para a economia nacional.

Hoje, no entanto, temos duas coisas boas para contar. A primeira é que a economia portuguesa cresceu 1,6% no 3º trimestre de 2016. Comparativamente ao trimestre anterior, o PIB aumentou 0,8% em termos reais.

Falava-se em algo em torno de uma variação homóloga do PIB de 0,9%. Veio melhor do que isso (+1,6%). O valor mais elevado da zona Euro.

Falta uma longa estrada a ser percorrida e ainda estamos carentes de detalhes, mas finalmente temos um plano de voo consistente e uma real possibilidade de atingir a meta de 1,2%.

Ademais, foram as exportações a puxar pela economia!

O que não reflete de modo algum a estratégia económica do Governo, que preferiu centrar as suas prioridades no consumo interno.

01:22 - Factos e evidências

Ontem tivemos uma acesa discussão aqui na Empiricus sobre estes números.

Não nos esquecemos que continuam distantes do objetivo do Governo (que reviu de 1,8% para 1,2% o crescimento para 2016), mas decidimos focar a nossa atenção no futuro…

Pauta: “Será que foi apenas um lampejo ou será o início de um movimento mais consistente?”

Vamos aos factos:

– Os empresários portugueses voltaram a apostar no mercado internacional.

– O turismo continua a evoluir favoravelmente (com um peso cada vez maior no nosso PIB).

– A procura interna registou um contributo negativo.

02:33 - O Bom, o Mau e o Vilão

Se somarmos uma evolução favorável da economia (via exportações) à desvalorização do euro, teríamos um rumo devidamente pavimentado para a recuperação.

São duas notícias importantes e merecem ser comemoradas.

Com a devida parcimónia, claro. Estamos a falar de um trimestre apenas.

O problema da economia portuguesa é estrutural.

Além da óbvia falta de competitividade (fiscal e laboral), ainda paira sobre nós a montanha de dívida acumulada nas últimas décadas.

“Com o agravamento na perceção dos riscos, podem traduzir-se em restrições bruscas e significativas das condições de acesso a financiamento” (Conselho das Finanças Públicas).

Em bom português, o Estado poderá ficar de um momento para o outro sem forma de se financiar. E será uma repetição de 2011…

03:05 - O pior aluno da turma

Hoje, apesar dos números positivos divulgados, as yields portuguesas são as que mais sobem na zona Euro…

o-pior-aluno-da-turma

Yield OT 10 anos. Fonte: Bloomberg

A degradação do ambiente para renda fixa é notável. Aumentou drasticamente o retorno exigido, como pode notar pelo comportamento de todas as yields europeias.

Portugal, se piorar como parece, estará muito perto do nível definido pela DBRS (4%) para despoletar uma revisão do rating em baixa.

Desta forma, deixaria o programa de compra de ativos do BCE…

O que se transformaria numa profecia autorrealizável: ao perdermos o rating, automaticamente as nossas yields disparariam, impedindo o Governo de se financiar, o que levaria a um pedido de ajuda…

04:04 - Resumidamente

Apesar das boas notícias, os riscos continuam extremamente elevados.

O que deverá impactar também as decisões de investimento dos agentes económicos.

É curioso que cá dentro, emprestar ao Estado ainda é visto como um investimento seguro…

Veja que as obrigações do Tesouro (OTVR) vendidas aos investidores particulares esgotaram ao fim de oito horas. E no total, as famílias já emprestaram ao Estado este ano mais de cinco mil milhões de euros.

Enquanto isso, os investidores institucionais fogem a sete pés…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.