Quando os céticos ficam calados

O risk premium é o termómetro do ceticismo do mercado. Quanto mais alto, maior é o excesso de retorno exigido pelo investidor por carregar mais risco…

Maior Menor
Por 5 de Setembro de 2016

.: Pequena nota explicativa
.: Eu queria mais
.: Custo do dinheiro
.: Pescadinha de rabo na boca
.: Pelo mundo fora

00:08 - Pequena nota explicativa

Talvez já tenha ouvido falar do Modelo de Avaliação de Ativos Financeiros, conhecido mundialmente pela sigla inglesa CAPM (Capital Asset Pricing Model).

O modelo pressupõe que investidores racionais requerem retornos mais altos para suportar ações que tendem a oscilar mais (com um beta alto), em contraposição a ações que tendem a oscilar menos (de beta baixo) …

Por outras palavras, assume que os agentes económicos são avessos ao risco, o que significa que, dados dois ativos que oferecem o mesmo retorno esperado, os investidores preferem o de menor risco.

Faz sentido…

01:22 - Eu queria mais

O retorno que um ativo “mais arriscado” oferece em excesso em relação a um ativo sem risco, como os títulos do tesouro do governo, é chamado o Prémio de Risco. Esta diferença existe para compensar os investidores que estão dispostos a arriscar mais…

De certa forma, o risk premium é o termómetro do ceticismo do mercado. Quanto mais alto, maior é o excesso de retorno exigido pelo investidor por carregar mais risco…

Atualmente, contemplo no mercado níveis baixíssimos de ceticismo, medo ou aversão ao risco, como lhe quiser chamar…

A maioria das pessoas estão dispostas a realizar investimentos de risco, muitas vezes porque os retornos prometidos pelos investimentos tradicionais (“seguros”) são insignificantes… o que na prática se traduz nos prémios de risco mais magros que eu já vi!

O bom senso foi substituído pela fé (ou manipulação) nos bancos centrais.

02:34 - Custo do dinheiro

Segundo o CAPM, o custo de capital corresponde à taxa de rentabilidade exigida pelos investidores como compensação pelo risco de mercado ao qual estão expostos.

Através dos planos de flexibilização quantitativa e de taxas de juro historicamente baixas, os bancos centrais conseguiram criar esta falsa sensação de inevitabilidade…

Se não aumentar o risco da sua carteira, não consegue ter rentabilidade…

Então o investidor é “obrigado” a descurar o risco e a investir sem olhar a nomes… isso causa todo o tipo de sobrevalorizações.

Pense em setores ou classes de ativos em dificuldades que acabam por receber fluxos de capital já que o seu retorno potencial é mais elevado (mas também é o seu risco).

Então, como é que se regressa a um mundo “modelar”?

Por meio da elevação do custo de capital! Ou seja, através de um processo de normalização das taxas de juro (via política monetária).

03:11 - Pescadinha de rabo na boca

Problema: os bancos centrais têm receio que uma subida das taxas de juro provoque uma recessão e que fomente uma queda do preço dos ativos (o rebentar da bolha).

Logo agora que já empregaram todas as medidas que tinham ao seu alcance para combater esta crise…

Veem-se, assim, enrolados num ciclo vicioso, sem saída à vista. Obrigados a baixar taxas de juro e a inventar novos pacotes de estímulos ad infinitum

E enquanto a liquidez continuar a ser injetada no mercado em doses cavalares, os investidores serão empurrados a investir em ativos cada vez mais arriscados, com rendibilidades cada vez menores.

Quando toda a gente acha que alguma coisa não é arriscada (ou não tem alternativa), a sua vontade de comprar aumenta o preço do ativo até um ponto onde o ganho potencial é mínimo (já que não pode subir muito mais) e o potencial de perda (risco) é altíssimo.

04:09 - Pelo mundo fora

Nos EUA, o processo de “normalização” tem sido muito lento. Quando emergem rumores de uma elevação dos juros, surgem logo indicadores a contradizer a explanação de que a economia norte-americana aguenta esse processo. Vejam-se os dados de emprego da última sexta-feira que saíram mais fracos do que o esperado…

No resto do mundo, este regresso à normalidade nem está sequer na agenda… O tempo ainda é de imprimir dinheiro:

No Japão, “há um espaço amplo para mais estímulos monetários nas três dimensões – quantidade, qualidade e ao nível da taxa de juro – e outras ideias novas não devem ser postas de parte,” referem apontamentos preparados por Kuroda.

Na zona Euro, o Banco Central Europeu volta a reunir-se na quinta-feira para avaliar e discutir as novas medidas a anunciar.

Neste cenário, por ora, aumenta o apetite por ativos de risco.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.