Reagrupamento de preocup(ações)

O banco está a arrumar a casa – trazendo a cotação para valores mais respeitáveis – e preparando o mercado para um eventual aumento de capital.

Maior Menor
Por 28 de Setembro de 2016

.: Balão de oxigénio
.: Omnipresente
.: Completamente neutral
.: Território bolha
.: Aquecimento mundial

00:09 - Balão de oxigénio

Depois de um início de semana complicado, com o temor da quebra do Deutsche Bank, os mercados registam hoje um dia de otimismo.

A novela alemã veio lembrar aos investidores que por detrás de todas as crises existe sempre um banco falido.

A aversão ao risco faz uma pausa diante das declarações do CEO, John Cryan, que, em entrevista ao Bild, descartou a necessidade de realizar um aumento de capital “neste momento” e qualquer ajuda por parte do Governo.

Entretanto, o gigante alemão vendeu a sua unidade de seguros no Reino Unido por 935 milhões de libras (cerca de 1,08 mil milhões de euros).

Ganha assim um balão de oxigénio no curto prazo. Ou será monóxido de carbono?

01:22 - Omnipresente

Os desdobramentos da eventual queda da instituição financeira alemã são desconhecidos e isso é sempre um problema.

Os maiores riscos são justamente aqueles de difícil mensuração e para os quais não estamos preparados.

Talvez ainda mais preocupante para nós, portugueses e portuguesas, seja a instabilidade política no país e como isso se traduz na perda de competitividade.

Enquanto o primeiro-ministro, António Costa, e os aliados do governo se preocupam com fait-divers… Portugal desceu este ano oito lugares, de 38º para 46º, no ranking mundial da competitividade do World Economic Forum.

A principal razão desta descida é a suspeita do costume: “a ineficiência da máquina administrativa do Estado”, invariavelmente incapaz de resolver os problemas da economia. Parece até mais vocacionada para criá-los.

Omnipresente e sempre castradora apaga toda e qualquer faísca de empreendedorismo.

02:01 - Completamente neutral

Na sequência de uma recente mudança regulatória, o BCP confirmou o seu reverse stock-split. O reagrupamento das ações está definido de forma a que cada 75 ações antigas transformam-se em 1 ação nova.

E o procedimento será efetivo no dia 24 de outubro.

Isso quer dizer que o João F. que possui 75.000 ações antigas, passará a ter apenas 1.000 ações novas. Assim, um efeito completamente neutral para o investidor em termos económicos.

Por outro lado, demonstra que o banco está a arrumar a casa – trazendo a cotação para valores mais respeitáveis – e preparando o mercado para um eventual aumento de capital.

Ainda ontem a Comissão Europeia exigiu, novamente, uma solução urgente para o stock de dívida vencida no balanço dos bancos portugueses.

Enquanto não houver visibilidade sobre o remédio para a banca, como um todo, e para o BCP em particular, o setor irá continuar sobre forte pressão.

Portanto, qualquer aposta nesse momento, é pura especulação.

03:33 - Território bolha

O que é que Vancouver, Londres, Estocolmo, Sidney, Munique e Hong Kong têm em comum?

De acordo com os economistas do UBS Wealth Management, estas seis cidades apresentam todos os sintomas de entrada em território “bolha”.

São Francisco, Amesterdão e Zurique também já têm o termómetro na boca…

Refletindo um longo período de taxas de juros negativas – parte do esforço dos bancos centrais de revitalizar a economia – o mercado imobiliário pode estar a sair dos trilhos.

Este relatório calculou que, desde 2011, as seis cidades viram os preços das habitações dispararem em média, pelo menos, 50%!

Enquanto isso, em outros mercados comparáveis, o aumento médio dos preços foi inferior a 15% sobre o mesmo período de tempo.

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04:14 - Aquecimento mundial

São, principalmente, três os fatores que têm contribuído para o sobreaquecimento destas cidades:

1. Inundação de capital estrangeiro: milionários chineses estão a fugir do país natal e procuram um lugar para estacionar o seu capital. Lisboa agradece.

2. Política monetária acomodatícia: as taxas de juro baixas, perto de zero ou mesmo negativas, ajudam a inflar artificialmente os preços dos ativos. Porque os compradores podem obter empréstimos baratos e, sistematicamente, aumentar o preço dos imóveis.

3. Expectativas otimistas: no final do dia, as pessoas vão continuar a pagar acima do mercado se acharem que o preço vai continuar a subir. Esta é a natureza humana e a origem de todas as bolhas…

Agora, alguma dúvida de que isto pode correr mal?

Cada caso é um caso, – saliento – mas não deixa de ser um alerta a respeito dos desequilíbrios que a economia mundial poderá enfrentar nos próximos anos se as políticas monetárias permanecerem como estão.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.