Semana dos diabos

Enquanto lhe falo os mercados vivem um dia bastante tranquilo. Afinal de contas é sexta-feira e os principais índices europeus acabam de ter uma das melhores semanas da sua história.

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Por 30 de Outubro de 2015

.: Semana dos diabos
.: Dependência
.: Valeu a pena?
.: Wealth Effect
.: Então em que ficamos

00:06 - Semana dos diabos

Enquanto lhe falo os mercados vivem um dia bastante tranquilo.

Afinal de contas é sexta-feira e os principais índices europeus acabam de ter uma das melhores semanas da sua história.

O Stoxx 600, o índice que engloba as 600 maiores empresas da Europa, acumula uma subida de 8% na semana.

Tudo isto, por causa das declarações de Mario Draghi na passada quinta-feira.

O presidente do Banco Central Europeu assumiu que está disponível e, inclusivamente, a preparar novas medidas de estimulo económico.

Ninguém sabe quando a bolhar vai rebentar. Mas nesta fase ninguém se atreve a ir contra a autoridade monetária da zona Euro.

00:55 - Dependência

Os mercados estão viciados na droga. Essa droga chama-se QE.

Quando a Reserva Federal norte-americana deu o mote em 2009 com o primeiro QE1, a intenção era estimular a economia através da injeção de liquidez.

Usaram uma medida “não convencional”, porque as que são usadas habitualmente – via taxa básica de juros ou taxa de redesconto do crédito interbancário – não funcionaram.

Apesar dos triliões injetados na economia-  já lá vão três QE do outro lado do atlântico – os indicadores económicos acabam sempre por revelar fraqueza numa fase posterior à intervenção.

Daí a necessidade de repetir a “dose”.

Neste momento, e depois de ter terminado o QE3.

A produção industrial do país do Tio Sam está em níveis de recessão e os riscos económicos globais não permitem uma contração monetária.

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02:01 - Valeu a pena?

A questão da real efetividade destes sucessivos programas para impulsionar a economia parece ficar em segundo plano.

Fatores como a alta taxa de desemprego, o alto grau de ociosidade na indústria e o risco de deflação parecem criar o ambiente perfeito para uma expansão quantitativa, sem maiores riscos no curto prazo.

O risco de falha do QE ocorrerá se o dinheiro injetado não se traduzir em consumo e investimento.

E na realidade, a inflação não aconteceu porque o dinheiro foi na sua maioria canalizado para os mercados financeiros.

Basta olhar para o desempenho nos últimos anos do S&P-500, Nasdaq-100 ou DowJones-30 para se perceber isto.

03:15 - Wealth Effect

Pergunta o leitor: mas com a valorização dos ativos, os consumidores não se sentem mais confortáveis acerca do seu património e por isso estão mais disponíveis para consumir?

Se o investidor tem mais capital na sua conta. Está mais confiante e por isso propenso a gastar mais dinheiro.

Bottom line: as empresas vendem mais. E o fato é que os resultados das empresas norte-americanas nunca foram tão fortes.

As vendas de automóveis estão em máximos históricos. E como já foi dito aqui, a Apple prevê vendas recorde no próximo trimestre.

bolsa

04:11 - Então em que ficamos

Como em tudo. Há coisas boas e coisas más.

A droga faz a pessoa feliz momentaneamente, mas todos sabem as consequências do abuso a longo prazo.

Este elixir “milagroso” tem consequências graves:

A mais importante é que promove a existência de grandes deficits orçamentais.

Veja se o caso da dívida norte americana, já mais do que duplicou desde inícios de 2007.

Boas notícias: poderá ser um falso alarme?

Sim, e com certeza a bolha não vai rebentar já amanhã porque ainda falta o QE4. Por isso, pode ir descansado para o fim-de-semana.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.