Sentimentalismo barato

De acordo com a imprensa financeira: “Yellen adia a subida de juros à espera do referendo britânico”.

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Por 16 de Junho de 2016

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00:09 - Veio nas notícias

De acordo com a imprensa financeira: “Yellen adia a subida de juros à espera do referendo britânico”.

“A decisão do Reino Unido foi algo que discutimos e foi um dos fatores na nossa decisão de hoje”, garantiu a presidente da Fed.

Mais importante que o Brexit, a doutora continua preocupada com os dados económicos norte-americanos.

Queda de participação da força de trabalho, menos emprego criado e crescimento do PIB mais lento.

E ela estará provavelmente a pensar: “Oh! My God!” Como é que eu me meti nesta confusão?

“Se eu fizer a coisa errada… ou mesmo disser a coisa errada… tudo pode explodir. E então, sou eu que vou levar com as culpas. Não o Alan (Greenspan), mesmo que tenha sido ele a começar isto tudo.”

“E não o Ben (Bernanke), embora ele tenha introduzido o ZIRP (taxa de juro zero)”.

“Não… coitada de mim… Janet Yellen Louise… sou eu que eles vão culpar.”

01:22 - Good vs. Evil

Então, o que fazer? É melhor jogar pelo seguro: encolher os ombros… baixar a cabeça… adiar… e fazer a conversa do costume de “dados preocupantes”…

Ms. Yellen está certa: A imprensa precisa não apenas de relatar eventos, mas também de explicá-los.

Os media precisam de heróis e vilões. O bem deve combater o mal.

Algumas personagens com chapéus brancos e outras com chapéus pretos. “Quem?” – e não “Porquê?” ou “Como?” – é a história que se vai contar.

Então, quando esta bolha de crédito rebentar, ninguém vai olhar para o Richard Nixon e estudar o sistema monetário que ele colocou em prática há 45 anos atrás…

Em vez disso, vão apenas ver a arma fumegante e o cadáver.

E a pobre Ms. Yellen será a culpada.

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02:33 - Purgatório

Claro, ela ainda pode ascender ao status de heroína – como Alan e Ben – se ela transformar a derrota numa vitória, se os estímulos forem suficientes para simular uma recuperação.

Em qualquer caso, quando a próxima crise vier, teremos o nosso dedo pronto…

E temos a intenção de apontá-lo a Ms. Yellen.

A verdade é que apontar o dedo a todos aqueles que são culpados envolveria mais dedos do que os que temos.

Além disso, é o “porquê” e “como” o que mais nos interessa…

Uma coisa é certa.

Ninguém os vai acusar de fazer pior do que o que os outros bancos centrais andam a fazer.

03:34 - Mímicos

No Japão, o banco central nipónico, também, continua na incessante caça ao crescimento…

Desta vez, no entanto, dado o risco Brexit, decidiram não tomar nenhuma medida adicional.

Manteve a taxa de juro em -0,1% e o programa de estímulos à economia nos 80 biliões de ienes (cerca de 671 mil milhões de euros).

O banco central da Suíça também optou por manter a taxa de juro de referência inalterada nos -0,75%.

E ainda hoje vai ser conhecida a decisão do Banco de Inglaterra (também não deverá mexer em nada).

04:09 - Safe heaven

Enquanto isso, as bolsas europeias vivem uma autêntica sangria.

Principais índices europeus escorregam mais de 1% com o fantasma do fim da União Europeia.

Existe alguma coisa a subir?

Pois é, o ouro que no final de Maio afundou por causa de uma eventual subida das taxas de juro norte-americanas, volta a ser o refúgio dos investidores.

A recuperação nos últimos dias foi notável e é natural que o movimento continue se o alarmismo aumentar.

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Futuros do Ouro / Fonte: Bloomberg

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.