Será que vale a pena ter fundos?

Em 1960, John B. Armstrong fez um erro de julgamento que lhe custou 5,4 triliões de dólares. Armstrong é considerado o “pai” do fundo mutualista.

Maior Menor
Por 3 de Agosto de 2017

.: Um pouco de história
.: Voltando atrás
.: Plot twist
.: Nem tudo o que é ativo reluz
.: Pontos nos is

00:12 - Um pouco de história

Em 1960, John B. Armstrong fez um erro de julgamento que lhe custou 5,4 triliões de dólares.

Armstrong é considerado o “pai” do fundo mutualista. Hoje, a maioria das pessoas sabe que os fundos captam dinheiro de vários investidores para depois investirem em diferentes ativos.

Mas na época quase ninguém sabia que existiam.

Toda a indústria tinha apenas 2 biliões de dólares em ativos sob gestão (“AUM”), ou seja, cerca de 1% do total das poupanças dos americanos.

Naquela época, todos os fundos de investimento possuíam uma coleção de ações escolhidas a dedo pelos gestores profissionais. É o que chamamos hoje de gestão ativa.

E Armstrong, que continuaria a ser presidente e CEO da empresa do fundo Wellington Management, perseguiu a estratégia com unhas e dentes.

Mas cometeu um erro…

01:03 - Voltando atrás

Armstrong descartou completamente a ideia do fundo “sem gestão ativa” – um investimento passivo projetado para replicar o desempenho de um índice.

Na altura escreveu um artigo argumentando que esses fundos nunca conseguiriam imitar a performance dos índices de referência.

Presumiu, por isso, que nunca ganhariam a aceitação dos investidores.

Como sabemos agora, ele não podia ter estado mais errado.

Os fundos passivos não só conseguem rastrear um índice de forma quase perfeita, como também se tornaram extremamente populares.

Hoje os fundos passivos acumulam 5,4 triliões de ativos – cerca de um terço do total dos ativos geridos por fundos nos EUA.

02:23 - Plot twist

Agora, aqui está algo que pode surpreendê-lo…

Armstrong escreveu sob um pseudónimo. O seu nome real é John C. Bogle.

Atualmente é mais conhecido como o criador dos ETFs.

Bogle fez uma curva de 180 graus após a desaceleração do mercado nos idos de 1970 que esmagou os acionistas da Wellington.

Ele iniciou o primeiro fundo passivo em 1975.

Agora, mais de 40 anos depois, estamos no meio de uma revolução dostrackers.

As pessoas estão a trocar os seus fundos de elevadas comissões por ETFs de baixo custo. Como Bogle, os investidores estão a descobrir a verdade surpreendente sobre a gestão ativa…

03:11 - Nem tudo o que é ativo reluz

Normalmente as pessoas assumem que os fundos geridos profissionalmente terão um retorno acima do mercado. Mas esse não é, de todo, o caso.

Ao longo dos últimos 15 anos, mais de 92% dos fundos de investimento de grande capitalização dos EUA que tentam bater o S&P 500 obtiveram um desempenho inferior ao do índice…

Parte desse subdesempenho deriva das taxas que cobram.

Ao longo do tempo, estes custos comem o retorno do investidor.

Imaginemos que o leitor tem uma carteira de 100 mil euros e pensa investir num fundo de baixo custo que rastreie um índice com um retorno anual de 5%.

Este fundo de baixo custo cobra uma comissão de gestão anual de 0,17%. Os seus 100.000 transformar-se-iam em mais de 411 mil euros ao final de 30 anos.

Agora, imaginemos que, em vez disso, decidiu investir num fundo gerido ativamente. Este fundo também ganha 5% ao ano, mas cobra uma taxa anual de 1,14%. Os seus 100 mil euros ultimariam em 311 mil.

Reparou na diferença?

04:01 - Pontos nos is

Sejamos claros.

A gestão ativa não está, necessariamente, condenada a um desempenho inferior ao do mercado. A questão é que as taxas associadas com a maioria dos fundos ativos superaram o desempenho de qualquer mercado.

Este mantra alterou significativamente a maneira como nós aqui pensamos em investimento. Especialmente para os menos encarteirados, que não podem eles mesmo gerir a sua carteira.

Na série Carta Empiricus as nossas recomendações tendem a focar-se em ETFs exatamente porque são simples, baratos e excelentes veículos de diversificação.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.