Sermão dos mercados aos políticos

O aumento de capital do BCP confirma que a despeito dos estímulos monetários, ainda não temos um sinal de retoma concreta.

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Por 11 de Janeiro de 2017

.: Agradecimento sincero
.: Dia encarnado
.: Aviso com propósito
.: O suspeito do costume
.: Bebé chorão

00:12 - Agradecimento sincero

Recebi aqui um memo da Equipa de marketing que hoje é o Dia Internacional do Obrigado – eu não fazia ideia que isto existia.

O objetivo da data é simplesmente agradecer a todos aqueles que fazem parte da vida das pessoas e que as ajudam e alegram, só por existirem. Ok. Eu admito é um pouco piroso.

Mesmo correndo o risco de parecer o Marcelo Rebelo de Sousa vou aproveitar a oportunidade para agradecer:

– à minha mãe – a mulher da minha vida.

– ao meu pai – o meu ídolo.

– à equipa da Empiricus – que atura o meu mau feitio matinal.

– aos nossos leitores – que comentam e nos acompanham diariamente…

Pelos vistos não somos os únicos fartos do bla-bla-blá típico dos engomadinhos que personificam o mercado financeiro.

Tem sido excelente a receção do M5M— o seu canal de informação financeira atual e descomplexada.

A vocês um muito obrigado.

01:03 - Dia encarnado

À exuberância da bolsa norte-americana se contrapõe uma realidade bem menos atraente.

Enquanto Wall Street desponta na comparação com o resto do mundo, o nosso índice (PSI 20) segue em direção ao abismo.

O aumento de capital do BCP confirma que a despeito dos estímulos monetários, ainda não temos um sinal de retoma concreta.

Os bancos continuam com a corda ao pescoço e à exceção das empresas que já vendem mais para fora do que cá dentro, o resto ainda se arrasta pelas ruas da amargura.

Hoje, como se o sentimento negativo se transmitisse na vizinhança, todos os títulos da nossa praça são arrastados para terreno negativo, enquanto lá fora, o dia é maioritariamente de céu limpo com algumas nuvens a pairar no mercado espanhol…

02:09 - Aviso com propósito

Sabe aquele aviso que volta e meia eu faço aqui no M5M relativamente às nossas taxas de juro? 

Ontem soubemos que o Tesouro (IGCP) estima necessidades líquidas de financiamento de 12,4 mil milhões, mas conta emitir entre 14 e 16 mil milhões em obrigações do tesouro em 2017.

Pois é… hoje é o dia em que o mercado volta a puxar as orelhas à República.

O calendário de financiamento vai arrancar com a emissão sindicada de novas obrigações a 10 anos, numa operação que visa captar três mil milhões de euros.

O montante é ao gosto do freguês – ajustado ao apetite do investidor, isto é, se houver muito interesse, a verba pode aumentar…

Já o custo da operação arrisca-se a ficar acima dos 4%…

02:58 - O suspeito do costume

A recente escalada nos juros portugueses levou a taxa de juro a 10 anos até aos 4,05%.

Ora neste tipo de emissões os investidores – os bancos contratados – tendem a exigir um prémio em torno dos 25 pontos base, o que levaria a taxa desta emissão para mais de 4,3%…

Recordo que no início do ano passado, o Tesouro garantiu quatro mil milhões de euros em títulos a 10 anos com uma taxa de 2,973%.

Ora, fazendo umas “contas de merceeiro”, iremos pagar sensivelmente mais 1,3% este ano do que no ano passado.

Assim, o acréscimo nos juros desta emissão de 3 mil milhões de euros terão um custo para o contribuinte de sensivelmente mais 39 milhões de euros (ou 390 milhões em 10 anos).

Percebe agora porque é que o Centeno “não está preocupado”?

Eu não.

 

03:12 - Bebé chorão

O mercado financeiro guarda certa semelhança com um recém-nascido.

Exige atenção constante, precisa de ser mimado e alimentado regularmente para permanecer feliz.

Ele é capaz de três estados gerais: a felicidade, a indiferença e o descontentamento.

A dívida portuguesa viveu um período de felicidade, quando depois do programa de ajustamento (mais ajuda do BCE) as yields a 10 anos tocaram nos 1,5%.

De lá para cá, a indiferença foi substituída por uma insatisfação, fruto do relaxamento das metas fiscais e reversão de reformas estruturais.

Como estamos a assistir: o descontentamento pode ser rápido quando ele não recebe atenção imediata.

Se as “birras” do mercado continuarem… então até os empréstimos do FMI vão parecer baratos – até aqui o Tesouro devolveu dinheiro porque o mercado oferecia taxas de juro mais baixas.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.