Tragédia portuguesa

2010 marca o início de uma moda bem latina. A crise da dívida soberana que atacou principalmente os estados mediterrâneos, deu o mote para a grande destruição de valor da praça nacional.

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Por 15 de Dezembro de 2015

.: Prólogo
.: Párodo
.: Episódio
.: Estásimo
.: Êxodo

00:04 - Prólogo

A história começa, como sempre, com a origem do protagonista:

A 31 de Dezembro de 1992, foi fundado o PSI 20, com um valor base de 3000 pontos.

Constituído pelas 20 maiores cotadas portuguesas, o índice teve dois períodos de enorme valorização:

Primeiro – até 1999 – bolha tecnológica.

Segundo – de 2003 a 2007 – bolha imobiliária.

Desde 2008, o índice entrou em estado catatónico. Apesar de uma recuperação em 2009, a crise da dívida soberana, que teve inicio em 2010, rapidamente eliminou esses ganhos e o mercado encontra-se hoje perto dos 5000 pontos.

Para o Sr. Manuel que anda cá desde o início, nestes 23 anos de existência, a praça lisboeta rendeu apenas 67% (2000 pts). São em média menos de 3%. Ele teria ficado melhor se tivesse colocado o dinheiro em depósitos a prazo, e além disso não teria desenvolvido problemas de coração.

psi20chart

01:03 - Párodo

Tradicionalmente nos países latinos, os vilões da peça são velhos conhecidos:

– demasiada influência do estado nas principais empresas;

– peso exagerado do setor financeiro;

– elevada concentração acionista (grande parte das empresas do PSI20 são dominadas por um investidor ou um grupo de investidores);

– pouca diversificação setorial (antigos monopólios do Estado, setor financeiro e retalho);

– empresas com pouca exposição aos mercados internacionais (e por isso dependentes de um mercado interno pequeno e pouco dinâmico).

02:23 - Episódio

À medida que a trama se foi desenvolvendo, o mercado andou ao sabor de tendências importadas (dotcom e subprime).

2010 marca o início de uma moda bem latina. A crise da dívida soberana que atacou principalmente os estados mediterrâneos, deu o mote para a grande destruição de valor da praça nacional.

Caraterizada por uma forte recessão económica, este período teve como resultados práticos:

– Delapidação do capital do investidor português (aumentos de capital na banca, falência do Banco Espírito Santo, e desmoronamento da Portugal Telecom), e consequente afastamento da bolsa de valores.

– Privatização das posições que o Estado ainda detinha, diretamente ou indiretamente, nas empresas cotadas: REN, NOS, EDP, GALP, PT, etc…

– IPO dos Correios de Portugal

– Intervenção do contribuinte para salvar mais uma instituição financeira em apuros (BANIF).

03:14 - Estásimo

Chegámos a 2015 e muita coisa mudou.

Ao nível da diversificação, a coisa ficou pior, apenas 10 cotadas têm mais de 1 bilião de euros de capitalização bolsista, e as 3 maiores juntas valem mais que as restantes 17 somadas.

Bolsacoluna

A dependência ao mercado interno continua elevada, mas como existe uma ligeira recuperação da economia, isso não são necessariamente más notícias.

A incerteza política, a resolução do problema Novo Banco, e agora o fantasma do Banif são os grandes riscos para 2016.

Em termos positivos temos:

O baixo custo de financiamento das empresas, os múltiplos de avaliação baixos, e a falta de alternativas de investimento às poupanças dos portugueses (graças ao Sr. Draghi).

04:01 - Êxodo

Será 2016 finalmente o ano da bolsa portuguesa?

Ninguém no seu perfeito juízo poderá arriscar num prognóstico tão generalista, até porque existem algumas empresas que prejudicam o desempenho do índice como um todo.

Apesar de o PSI20 ter subido 10% este ano, continua a ser uma subida muito ténue se quer recuperar o que perdeu em 2014 (-27%).

No entanto, alguns títulos fizeram um brilharete:

A Altri subiu quase 80% YTD.

A GALP e a EDPR subiram 17% em 2015.

A JMT e a NOS encaixaram mais de 35%…

Se 2015 nos ensinou alguma coisa é que ainda existe valor em alguma cotadas portuguesas e que um bom stockpicking pode fazer a diferença.

A nossa convicção é que vão existir boas oportunidades para repetir os ganhos que lhe mostrei não só em Portugal, mas também na Europa.

Nós já estamos a identificar as melhores empresas para investir o seu dinheiro, e a partir de 2016 começaremos a fazer as recomendações aqui no M5M Portugal.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.