Tremores no Terreiro do Paço

Eu sinceramente já consigo sentir alguns tremores ali para os lados do Terreiro do Paço. Não medidos em escala de Richter, mas em suor e suspiros…

Maior Menor
Por 6 de Outubro de 2016

.: Estou a ficar preocupado
.: Nem no pior cenário
.: O poder da Bloomberg
.: Ninguém quer salvar bancos
.: A verdadeira crise

00:10 - Estou a ficar preocupado

Existe um sismólogo que garante que irá acontecer um novo terramoto em Lisboa nos próximos 50 anos.

Eu sinceramente já consigo sentir alguns tremores ali para os lados do Terreiro do Paço. Não medidos em escala de Richter, mas em suor e suspiros…

Aqui de fora sente-se o desalento entre o primeiro-ministro, António Costa, e o number 2, Mário Centeno:

— Mário, os tipos de Bruxelas estão a ligar-me. Precisamos de cobrar mais impostos ou de cortar na despesa.

As reclamações constantes já não o abalam: é assim desde que assumiu o cargo.

— Ok. É um pouco em cima da hora, mas vou fazer o possível. Aviso já: na despesa já não dá para cortar mais. Já estamos a usar guardanapos na casa-de-banho. Deixa ver… não íamos taxar a vista, o imobiliário de luxo e os tipos do Airbnb?

— Isso não chega, pá! A história do consumo interno não funcionou e agora a economia não está a crescer o suficiente! O défice está por uma unha negra…

— Não me digas nada… já estou a trabalhar com um crescimento de 1,2% para este ano e 1,5% no próximo. E se taxarmos a gordura? Os gajos do McDonald’s fartam-se de ganhar dinheiro. E com esta moda dos hambúrgueres gourmet… anda para aí muito óleo…

— Ah, gostei da ideia, mas arranja aí uma justificação qualquer! Diz que nos preocupamos com a saúde dos portugueses.

— Prepara lá isso, então! E rápido que o pessoal vai estar distraído com o Guterres.

01:22 - Nem no pior cenário

O Orçamento de Estado de 2016 apontava para um crescimento de 1,8% este ano.

Nem na missiva endereçada à Comissão Europeia, quando o executivo se defendia contra as sanções, admitiu um crescimento inferior a 1,4%.

Mas como avisámos, repetidamente, aqui no M5M: contra factos, não há argumentos. A economia não cresce simplesmente por decreto e com discursos de otimismo.

Tem de se criar um clima favorável ao investimento, atraindo capital (estrangeiro) através de reformas estruturais e fomentando a confiança nos agentes económicos.

Ora, precisamente o caminho contrário escolhido pelo Governo.

Sem surpresa, os media veiculam que o Governo aponta agora para um crescimento de 1,2%. E recordo que algumas agências que acompanham a economia portuguesa estimam crescimento abaixo de 1% para este ano.

Até 31 de dezembro, ainda temos tempo para fazer duas revisões…

02:33 - O poder da Bloomberg

Na Europa, os mercados bolsistas em baixa pela segunda sessão consecutiva depois uma notícia avançada pela Bloomberg, que colocou a possibilidade de Frankfurt de começar a retirar os estímulos.

A agência noticiosa referiu que Mario Draghi já estaria a discutir estratégias para sair do programa.

A opção em cima da mesa, e que até poderia levar a uma extensão do programa, seria de reduzir o ritmo de compras mensais em dez mil milhões de euros por mês até ao final do programa.

Creio sinceramente que tal não irá acontecer!

O mercado continua muito dependente da sinalização de mais estímulos. Portanto, ao sinal de uma crise nos mercados financeiros o BCE deverá regressar em força.

03:02 - Ninguém quer salvar bancos

As preocupações com o Deutsche arrefeceram momentaneamente.

Rumores no mercado sugerem que o Governo alemão está em conversações com o Departamento de Justiça norte-americano para ajudar o banco alemão a garantir um acordo favorável…

Qualquer coisa é melhor que pagar 14 mil milhões de dólares…

Estas negociações bilaterais são apenas a faceta mais recente da maneira de fazer política mundial. Às portas da eleição, Merkel tenta ganhar tempo, antes de resolver o problema de falta de capital do gigante alemão.

E parece que está a conseguir: este é o sexto dia consecutivo de ganhos para os títulos.

Perfeito! É que nenhum governo no mundo quer ter de salvar bancos antes de uma eleição.

04:15 - A verdadeira crise

Os bancos europeus estão em crise. O Deutsche Bank – que já vimos – está em risco de ser nacionalizado.  O segundo maior banco do país, o Commerzbank planeia suspender o pagamento de dividendos e cortar cerca de 20% da sua força de trabalho ao longo dos próximos quatro anos. Os títulos do banco estão em queda livre desde abril de 2015.

Em Itália, o setor bancário está assolado por dívidas incobráveis. Em junho, a Italia All-Share Index Banks FTSE afundou para o menor nível desde a crise do Euro em agosto de 2012.

Nesse sentido, o FMI alertou que um quarto da atividade bancária nos países desenvolvidos está em risco de colapso.

O problema estrutural – com o antigo modelo da banca obsoleto – obrigará ao desaparecimento de bancos frágeis e ao redimensionamento do sistema bancário (nomeadamente, através de fusões e aquisições).

Se por um lado é um período de elevado risco, com potencial para uma catástrofe; por outro, os bancos que saírem vencedores deste período turbulento serão excelentes oportunidades de investimento.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.