Um Rocky Balboa no meio da Zona Euro

O grande risco europeu continua a ser a banca e é aqui que devemos focar-nos. Quase todas as tentativas privadas de salvar os bancos fracassaram. Alemanha com o Deutsche, Itália com o BMPS, Portugal e a novela do Novo Banco.

Maior Menor
Por 16 de Janeiro de 2017

.: Coming to America
.: Zona Euro
.: Rocky Balboa ficaria orgulhoso
.: O dilema de quem fica
.: Mistura dos conceitos

00:08 - Coming to America

Enquanto o responsável por esta série tira merecidas férias em NY, eu e o Diogo Baltazar escreveremos para si durante esta semana.

Quase sempre, cometemos o erro de achar que o que está nas nossas cabeças, o que lemos por aí e o que discutimos internamente, é o mais relevante para o nosso leitor.

Pura soberba. O mais importante é sempre aquilo que o leitor quer saber.

Sendo assim, feedbacks e pedidos de temas são muito bem-vindos.

Tentaremos responder e tratar aquilo que o leitor quiser.

Na tentativa de provocar tais pedidos, falarei sobre o que acho serem os principais temas da Zona Euro. Roubarei também, é claro, as ideias daqueles que acredito serem os que mais entendem do assunto.

01:01 - Zona Euro

Os problemas políticos em torno do Brexit, fortalecimento dos partidos de direita, crescimento do populismo, imigração, o terrorismo… – estão a ser exacerbados.

A todo o momento, novos factos vêm à tona e há mais instabilidade nos mercados, mais “certezas absolutas” de que haverá uma dissolução.

Não creio. Ao contrário do que Trump disse ontem, acredito que os problemas da Europa serão resolvidos com mais Europa (More Europe).

Em Berlim, há quatro semanas, Jim Rickards foi mais além: “quem sabe daqui por uns 5-10 anos não teremos uma única política económica, um único banco central e todas as dívidas sendo negociadas numa só unidade: Eurobonds!”

O grande risco europeu continua a ser a banca e é aqui que devemos focar-nos.

Quase todas as tentativas privadas de salvar os bancos fracassaram. Alemanha com o Deutsche, Itália com o BMPS, Portugal e a novela do Novo Banco.

Sem uma solução privada e na impossibilidade de novos salvamentos públicos (bail-out), haverá inevitavelmente uma corrida bancária. As pessoas vão precisar de ver outras pessoas começarem a perder dinheiro depositado nos bancos para se questionarem: Quão sólido é o meu banco?

Se quiser fazer algo em relação a isso, não deixe mais do que 100 mil euros no seu banco. Privilegie ativos reais e tangíveis, como imóveis, terras e ouro.

02:11 - Rocky Balboa ficaria orgulhoso

No meio de tantos insucessos de recapitalização, o segundo maior banco português arranca hoje com um novo aumento de capital.

Nos últimos seis anos o BCP convocou os seus acionistas quatro vezes.

Coincidência ou não, a ação encontra-se em mínimos históricos.

O valor: €1.332 biliões. E acredite se quiser, todo privado.

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Assim como o último, também este aumento de capital tem como objetivo pagar empréstimos e melhorar os rácios de capital.

“Ninguém vai bater mais forte do que a vida. Não importa como você vai bater e sim o quanto aguenta apanhar e continuar lutando; o quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha.”

Rocky BCP Balboa é duro na queda.

It ain’t over ‘till it’s over.

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03:11 - O dilema de quem fica

Se por um lado o governo respira aliviado por não ter sido obrigado a resolver esse imbróglio… o minoritário suspira e faz as suas contas para saber se entra no barco mais uma vez.

O maior acionista já vai na frente e reforça as esperanças. A Fosun já tem 16% do capital e espera alargar o controlo para 30%. A Sonangol, com 14%, ainda não se sabe se vai entrar no capital.

Já o pequeno investidor fica com um dilema:

– Ou acompanha o aumento de capital num investimento que tem vindo a ser ruinoso
– Ou vende os direitos e é completamente diluído

O pequeno investidor que decida não ir ao aumento de capital ficará com cada ação a valer próximo dos 15 cêntimos.

Em 2014 a situação foi semelhante e vimos no que deu.

A ciência explica: a aversão ao arrependimento é um termo presente em Finanças Comportamentais e está relacionada à ojeriza pela perda. Como é muito doloroso assumir o erro, o investidor evita ao máximo “realizar o seu prejuízo”. Vender as suas ações por um preço inferior ao de compra, mesmo que esteja convencido de que as chances de recuperação da sua carteira sejam remotas.

04:12 - Mistura dos conceitos

Tanto a União Europeia como os EUA restringiram o uso de socorros aos bancos pelos governos (bail-out).

O sentimento por detrás disso é bastante louvável, já que, durante a crise financeira, os governos usaram o dinheiro do contribuinte para salvar os bancos… enquanto pessoas comuns perderam as suas casas e os seus empregos.

O governo português salvou o Novo Banco anteriormente e agora negoceia com os compradores.

Qualquer negociador saberia que só tinha de adiar as negociações até à data final para poder encostar o Governo às cordas.

A negociação arrasta-se… Vender algo que lhe custou quatro mil milhões de euros por 700 milhões dói. E muito. As Finanças Comportamentais explicam. Um governo extremamente preocupado com a sua popularidade também.

Com o passar do tempo a probabilidade de o Novo Banco ser vendido a zero é cada vez maior.

O contribuinte, indireta e diretamente, já pagou essa. Resta saber quem ficará para pagar o restante (se não entendeu, volte ao minuto 01:01 deste M5M).

Renato Breia, CFP®, Analista-Chefe de Investimentos

Formado em Economia pela PUC-SP e Planejador Financeiro certificado pelo IBCPF. Iniciou a sua carreira como analista de ações na Link Corretora e tem experiência de mais de 12 anos em mesa de operações, gestão de fundos, relações com investidores e alocação de patrimônio.