Utilizamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços através da análise dos seus hábitos de navegação. Se continuar a navegar, consideramos que aceita a sua utilização. Pode obter mais informações ou saber como alterar a configuração, na nossa "Política de Cookies".
Outubro de 2019

O movimento da T.I.N.A.

Simply the best

Por Pedro Gonçalves, Editor-chefe Lisboa, Portugal

Foi em 1989 que Tina Turner lançou aquele que viria a ser o seu maior sucesso discográfico. Eu era muito novo para me lembrar desses loucos anos 80, mas consigo imaginar como é que os meus pais dançariam esseshits frenéticos. Com calças justas, blusões coloridos e permanentes no cabelo.

Na altura, parecia a melhor coisa do mundo. O último grito da moda. Hoje, olhando para trás, verificam que foram vítimas da tendência.

Ontem, olhando para fotografias dessa altura, o meu pai dizia-me: “onde é que eu estava com a cabeça?”. Todos nós já passámos por isso. O que é moda num dia, deixa de ser no outro.

Se bem que, quando a diferença para a média é pouca, a nostalgia acaba por ser aprazível. Imagino aquele look clássico de camisa e Ray Ban. Tudo o resto, mais arriscado, acaba por passar de moda. E quando fazemos uma viagem pela memória, o sabor na boca pode ser amargo.

O mercado de ativos funciona da mesma forma. Todos os movimentos exagerados, distantes da média, parecem-nos perfeitamente razoáveis no momento (imagine calças à boca de sino), dado uma justificação satisfatória que algum especialista prontamente arranjará.

Findo o movimento, verifica-se que tudo não passou de uma ilusão. E que na prática, devíamos ter ficado pela camisa e pelo sapato clássico (diga-se, bons ativos geradores de caixa).

Digo isto porque mais e mais aparecem nos cabeçalhos dos grandes diários económicos eventos de escala T.I.N.A. (there is no alternative):

Em Portugal

Nos EUA

No Reino Unido

PS: a nossa colega Katie Martin do FT ainda parece curtir os looks de outras épocas…

Better than all the rest

Assim como a Tina já foi umas grandes referências da moda, agora o movimento homónimo ganha força pelo mundo fora. There Is No Alternative é a corrida dos investidores para ativos de maior risco…

Ora, o leitor ganha perto de zero por cento no banco (muito provavelmente, até perde dinheiro se contabilizarmos a inflação e as comissões cobradas).

Por outro lado, pode ganhar 3% em títulos públicos a 10 anos. E os títulos corporativos de boa qualidade já pagam menos que isso…

Como zero está muito longe do que o investidor precisa para manter a paridade do seu poder aquisitivo, começamos a entrar no role do desespero. Então, procura-se em todos os lugares para encontrar rendimento…

Além da nossa dívida pública, começam a encontrar estas rendibilidades atrativas em fundos negociados em bolsa de obrigações de mercados emergentes (ETFs). Provavelmente, algo que nunca lhes tinha passado pela cabeça, mas que agora faz todo o sentido… como cantaria a Tina: a yield is better than all the rest.

Better than anyone, anyone I’ve ever met

Um investidor individual pode não perceber isto, mas através da compra destes fundos, ele está a arriscar as poupanças (arduamente) acumuladas ao longo da sua vida nos governos da Índia e da Rússia, entre outros.

O benefício é duvidoso… A maioria destes ETFs de obrigações de mercados emergentes paga juros inferiores a 5%. Cinco por cento!

Enquanto isso, o preço deste ETF pode cair facilmente 5% em menos de uma semana, obliterando os juros que iria receber num ano inteiro.

O gráfico abaixo mostra a corrida dos investidores para esta classe de ativos:

No caso Português, a história é parecida. As taxas de juro das obrigações portuguesas estão perto dos mínimos históricos numa perspetiva de muito longo prazo. Alguma vez alguém achou que pagaríamos taxas negativas aos nossos credores de curto prazo? Claro que não.

Mas num mundo controlado pelos bancos centrais, onde os preços dos ativos são manipulados através de triliões de moeda criados a partir do nada, já nada faz sentido (um pouco como as permanentes).

Então o investidor acaba por investir em ativos que geram retornos (yields) bem abaixo da sua média (ou acima se considerarmos o preço da obrigação), sendo que o seu risco (de mau gosto) continua elevadíssimo como sempre.

I’m stuck on your heart

O que acontece, na prática, é que os investidores correm em direção à yield, mesmo que esta esteja desajustada em relação ao risco. A moda é ir atrás de obrigações com bom retorno, independentemente do racional económico.

E se a história nos ensinou alguma coisa foi que o presente parece ser sempre o momento mais importante e especial da nossa vida. Na verdade, ele acaba por tender sempre para a média. E quem comprou títulos de longo prazo, com racionais de curto prazo tende a dar-se muito mal.

Nesse sentido recomendamos que fique fora destes ativos. Mesmo que no curto prazo o movimento possa continuar. É normal, um fluxo gigantesco de dinheiro que entra numa determinada classe de ativos não significa exatamente o fim do movimento, mas sinaliza o princípio do fim.

Eu vou ficar de fora… e recomendo vivamente que faça o mesmo.

Não fique tentado pelos rendimentos que estes fundos oferecem… A dor que vai passar quando tenderem para a média (quando vir as fotografias) acabará por ser muito maior do que o benefício do pequeno diferencial de retorno que oferecem em relação a outros ativos melhores (o sucesso que faz entre os seus amigos).

A Tina mostrou-nos como a moda passa. E às vezes, muito rápido.

Um abraço,

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.

Disclosure

Os estudos são baseados em informações disponíveis ao público, consideradas fiáveis na data de publicação. Todas as opiniões, projeções e estimativas incluídas nos relatórios, cuja autoria pertence à Empiricus, formam a sua apreciação final no momento da sua realização e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio, sendo que os pressupostos em que a análise em causa se baseou podem ou não vir a revelar-se corretos, não existindo qualquer garantia de que os resultados projetados sejam ou venham a ser atingíveis. A Empiricus declina desde já, qualquer responsabilidade pelas decisões ou resultados destas, tomadas com base na referida informação. A Empiricus não é responsável pela informação financeira divulgada, designadamente, cotações, índices, notícias, estudos ou outra informação financeira obtida através de terceiras entidades ou pela má percepção, interpretação ou utilização dessa informação.

Os relatórios não representam uma oferta de venda nem qualquer solicitação de compra de instrumentos financeiros ou de qualquer serviço de intermediação financeira. As análises, informações e estratégias de investimento têm como único propósito fomentar o debate entre os analistas da Empiricus e os destinatários.

Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias análises e estratégias. Informações adicionais sobre quaisquer sociedades, valores mobiliários ou outros instrumentos financeiros aqui abordados podem ser obtidas mediante solicitação.