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Outubro de 2019

O segredo por trás da crise do petróleo

Todos os meus amigos me perguntam o que é que eu acho do preço do petróleo.É hora de comprar?

Por Renato Breia, CFP®, Analista-Chefe de Investimentos Lisboa, Portugal

oil

 

Já estou cansado.

Todos os meus amigos me perguntam o que é que eu acho do preço do petróleo.

É hora de comprar?

Renato, o depósito não dá nada!! Não devia arriscar aqui qualquer coisa?

– Caiu tanto. Com certeza, é uma oportunidade de fazer algum dinheiro.

A minha resposta (paradoxo, eu sei), começa sempre com uma pergunta:

Sabes porque é que cai o petróleo?

Sim, já sei. Nas últimas semanas, a cotação até tem tido alguns movimentos positivos, mas não salva o momento angustiante que sofre o crude e pior, aqueles que investiram nele.

Apesar do sentimento altruísta que me leva a escrever estas linhas, também assumo algum egoísmo (preciso de paz de espírito). Por isso é que decidi escrever este artigo.

Para responder a todos, de uma só vez, prometo ser breve. Acho que lhe consigo explicar a ideia geral em menos de cinco minutos.

A história da crise do petróleo começa nas Arábias. Fundada em 1960, a OPEP sempre definiu o preço da matéria-prima de acordo com as suas pretensões. Para isso, controlava a oferta. Já que a procura estava “tendencialmente” a aumentar, para aumentar o preço, bastava diminuir a oferta (e eles “eram” a oferta).

O problema é que estes parceiros entraram em desacordo. Os custos de produção são diferentes. No deserto basta fazer um buraco no chão, no alto-mar as perfurações exigem investimentos bilionários.

A contenda começou quando os EUA declarou o seu objetivo de ser autossuficiente em termos energéticos, através da exploração das jazidas de óleo e gás de xisto (fontes não convencionais).

Já sabe quem é que não gostou?

A Arábia Saudita, o maior produtor de petróleo do mundo. Porque é que não gostou? Porque iam perder um dos seus maiores clientes.

O petróleo tradicional, aquele que brota debaixo de uma pedra (imagine Médio Oriente), tem uma produção muito mais barata que o de xisto (nas notícias usam a expressão anglo-saxónica: shale oil).

É por isso que os países do cartel da droga a que todos os veículos estão “agarrados” decidiram baixar o preço para mínimos históricos para que a produção norte-americana seja inviável.

O fracking, o processo pela qual se extrai a energia não convencional, é muito caro e só é possível com o preço do barril muito elevado.

Desta vez, não precisa de análise técnica, nem fundamental, nem comparações de rácios, nem estudar os inventários ou os anúncios de novas reservas para explicar a dinâmica do preço do petróleo.

O que está a impactar o preço é a disputa geopolítica entre Washington e Riade. E olhe que não é a primeira vez que isto acontece. Observe como foi a performance do petróleo cada vez que houve um conflito no Médio Oriente, por exemplo, a Guerra do Golfo ou os atentados de 2001 (que levaram à invasão do Afeganistão e Iraque).

O preço do barril, agora e sempre, não é unicamente uma função de oferta e demanda. Aliás nunca é. Os fatores exógenos são muitas vezes mais importantes que os intrínsecos.

No caso do óleo viscoso, as disputas geopolíticas são o outro fator de grande influência.

E daqui para a frente? (afinal, era essa a pergunta)

A minha veia de analista tem destas coisas. Gosto de explicar bem o problema, para perceber para onde podemos ir daqui.

Depois de cair mais de 70% desde os máximos de 2014, parece fácil fazer este raciocínio. Mea culpa. Não previ este tombo, se serve de desculpa, ninguém previu…

Fonte:ThomsonReuters

A decisão foi arbitrária (governo americano decidiu sozinho) e resultou na mudança de direção de um dos principais players do mercado (ex-consumidor).

Então, e aqui vou assumir a minha ignorância, é impossível saber quanto é que vai custar amanhã ou daqui a um mês ou daqui a um ano.

Se alguém afirmar que sabe, então desconfie da previsão, exceto se essa pessoa janta com o Barack Obama ou com o Rei Salman da Arábia Saudita.

Os palpites dos especialistas no preço do petróleo têm saído completamente ao lado. Se considerarmos as previsões que quase todos os bancos de investimento do mundo fizeram sobre o petróleo desde o inico de 2015: praticamente todos falharam.

Estimavam um barril entre os 50 e os 55 dólares para início de 2016. Agora está nos 40. Uma diferença de quase 20%…

É por isso que é impossível, neste cenário, vaticinar um range certeiro para a cotação do crude. Não quero ser só mais um especialista…

Se quer investir hoje, o preço está muito tentador, mas quero que esteja consciente que estará a assumir um altíssimo risco, num mercado volátil e com uma procura debilitada, no contexto global.

Especialmente pelo efeito do arrefecimento chinês.

O trigger está na torneira. Para haver um ajuste considerável da oferta os membros da OPEP têm de estar dispostos a produzir menos. Só assim poderá haver um equilíbrio rápido entre a oferta e a procura… a menos que haja algum conflito armado no Médio Oriente (mas nem a ameaça da ISIS ajudou a cotação dos barris).

O problema é que os grandes produtores de petróleo são economias altamente subsidiadas pela produção de petróleo.

Veja-se a Venezuela. Exemplo muito simples: o Maduro vende 1.000 barris por dia a $40 (receita: $40.000).

Imagine que um corte na produção para 800 barris, faria subir o preço para $60, só esse efeito faria a receita saltar para $48.000 (com menos quantidade, ganharia mais).

O problema é que o antigo camionista não pode arriscar na possibilidade de o barril atingir os $60. Na cabeça dele, baixar produção para 800 barris (ao preço de $40) traduz-se numa perda imediata de $8.000 num orçamento já esfrangalhado (já que passaria a receber $32.000).

Na realidade, ele estará mais disposto a arriscar em produzir mais, e receber menos: 1500 x $30 = $45.000. A pressão de pagar os ordenados do aparato obriga a decisões de curto-prazo.

Mesmo assim, as últimas notícias dão conta de um acordo, para pelo menos não aumentar a produção por parte da OPEP (cenário acima) e isso pelo menos estancou a hemorragia nos mercados. Mas este equilíbrio está preso por um fio…

O range de 30 – 40 dólares a que o petróleo cota agora parece um bombom ao lado dos 130 dólares a que já chegou a negociar. Mas nada nos garante que o sentido não é para baixo, ou seja, os 20 dólares ou menos.

Oiça com atenção.

Se tem capital para investir a medio-longo prazo, que pode surfar nas turbulências.

Primeiro, deve considerar se existem melhores oportunidades para aplicar o seu dinheiro.

Se mesmo assim acha que é um investimento prometedor, fique ciente que não é para qualquer carteira (e coração).

Hoje em dia, a maneira mais fácil de fazê-lo é via os ETFs (USO: United States Oil ETF) disponíveis na sua corretora.

São instrumentos financeiros que replicam a variação dos contratos de futuro do petróleo, com o custo de administração bastante reduzido.

Espero que o tenha ajudado.

Um abraço,

Renato

Renato Breia, CFP®, Analista-Chefe de Investimentos

Formado em Economia pela PUC-SP e Planejador Financeiro certificado pelo IBCPF. Iniciou a sua carreira como analista de ações na Link Corretora e tem experiência de mais de 12 anos em mesa de operações, gestão de fundos, relações com investidores e alocação de patrimônio.

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